by Ju Brondino* :
Um desabafo.
Meu paciente não tem motivos nenhum para confiar em mim: ele não me conhece e também por isso ele pode me morder, me ferir. Meu paciente não fala e por isso muitas vezes não tem como eu descobrir que aquele nódulo está ali há mais de meses e não desde a semana passada, que há tempos ele está sem seus pelos e se coçando horrores já que o proprietário, para se esquivar da irresponsabilidade de ter negligenciado seu animal, me conta outra história, dificultando assim ainda mais meu trabalho. E ainda sim você paga, com muito menos protestos, um valor bom por uma consulta a um médico cujo paciente fala e não morde e reluta em nos pagar!
Muitos acham que nosso trabalho se restringe a cuidar de cachorrinhos e gatinhos em clínicas veterinárias. Mas somos mais importantes do que podem imaginar, não querendo nos vangloriar, mas sim colocar-nos no nosso lugar: sabe aquele bife que você come no almoço? Aquele frango frito, o porco assado e aquele bacalhau? Eles eram animais e precisavam permanecer saudáveis para chegar ao período de abate para que você se alimentasse e mais: eles precisavam permanecer saudáveis para que sua família não adquirisse nenhuma doença quando os consumissem, para isso suas carcaças também são analisadas após o abate para certificarmos que tudo está correto, que não há perigos a saúde humana. Lembrando-se também dos seus derivados como leite, ovos, lã etc.
Leishmaniose, leptospirose, raiva e toxoplasmose são só algumas doenças, além da infestação por vermes, que os animais podem transmitir aos seres humanos prejudicando seu bem-estar e por trás do seu controle e erradicação há um Médico Veterinário.
Não podemos esquecer-nos da contribuição onerosa dos cavalos utilizados para preparo de soro antiofídico para os humanos e que também necessitam de acompanhamento veterinário.
Estamos na farmacologia, na economia rural, no melhoramento genético, na preservação e reintrodução de espécies para a natureza, na vigilância sanitária, na nutrição, na reprodução animal. Tudo e absolutamente tudo que pode ser usado por animais ou que lhes remetem a pensar num animal, lá estamos nós!
Ralamos para passar num vestibular, nossos pais ralam para nos manter estudando e nós ralamos estudando!
Parece fácil, mas não é tanto assim: são noites sem dormir pra estudar pra provas, são iniciações cientificas, estágios, monitorias, projetos de extensão e muitas, mas muitas aulas.
Não podemos nos esquecer que não estudamos só uma espécie, precisamos saber das enfermidades, fisiologia, anatomia, nutrição, comportamento e tudo o mais dos cães, gatos, bovinos, suínos, caprinos, ovinos, aves e eventualmente animais silvestres e exóticos como porquinhos-da-índia, hamsters, pítons, coelhinhos e tudo o mais que o povo inventa de criar.
Enfim, estudamos no mínimo 5 anos de nossas vidas, sacrificamos momentos importantes das mesmas , tempo com a família e dedicamo-nos a aprender e ser um bom profissional para no final, dificilmente sermos reconhecidos.
Também não é qualquer um que pode fazer o nosso trabalho, afinal se fosse não precisaríamos estudar tanto! Nem todos os remédios pra humanos podem ser administrados aos animais e muito menos na mesma dosagem. Quantos e quantos casos de aspirinas para gatinhos ou ainda cães com a pele detonada porque “óleo de cozinha queimado mata carrapato” ou ainda intoxicados por produtos que são para administração de outros animais como carrapaticidas? A intenção das pessoas ao “indicar um tratamento” não é má, mas na maioria das vezes causa o mal.
Por isso digo e repito: nosso trabalho tem que ser bem pago. Quando nos submetemos a salários medíocres prejudicamos a classe toda, afinal porque pagar mais caro se tem um que faz por metade do preço? Logo estaremos trabalhando quase de graça. E não só na Medicina Veterinária mas em muitas outras profissões que não possuem o reconhecimento adequado: não se desvalorizem!
Às vezes é difícil ver um animal necessitado cujo proprietário é um muquirana e não ajudar. Mas se você não pode ou não quer pagar não tenha um animal. Se você terá um animal para maltratá-lo, e maltratar não é só bater, mas também negligenciar é melhor não tê-los. Você tem se pode se não pode não é para ter e pronto acabou!
E não esqueçam: consulta = “60 reais”, olhadinha = “100 reais” e descobrir o que o animal tem por telefone = não tem preço ( só sendo vidente mesmo ¬¬)!
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
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